A Arte do Futebol

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Jogadores ingleses não atingem o seu potencial.



Qualquer jogador que treine com os melhores se torna melhor e a qualidade das equipas inglesas é muito grande. Também é verdade que em Inglaterra existe uma percentagem muito grande de jogadores estrangeiros nas primeiras equipas, o que pode ser um ponto contra o florescimento dos jogadores nacionais. No entanto, num mundo tão competitivo como este, impera a lei da sobrevivência do mais forte e se os jogadores ingleses tiverem qualidade, eles irão vingar. A questão é que parece não haver assim tantos jogadores ingleses de qualidade e isso remete-nos para um problema ainda mais grave: a formação:

Só para servir de introdução, deixo aqui um facto interessante: 7º (Alan Pardew), 12º (Gary Monk), 17º (Eddie Howe), 18º (Sam Allardyce) e 19º (Steve McClaren). Estas são as classificações na Premier League dos únicos 5 treinadores ingleses (Tim Sherwood estava em último mas já foi substituído). É certo que sem ovos não se fazem omeletes mas alguns destes treinadores têm já uma vasta experiência no seu país, porque não fazem melhores trabalhos ou porque não são apostas para clubes de maior dimensão? Do que me vou apercebendo, os treinadores ingleses pararam no tempo há cerca de 10 anos atrás. É incrível como por esta altura, o método de treino analítico ainda é tão popular no Reino Unido e como muitos treinadores se recusam a evoluir. No entanto, isto pode acontecer por um aspecto tão simples quanto este: a periodização táctica, por exemplo, tem origens latinas (Portugal) e qualquer anglo-saxónico que se preze fala apenas uma língua, como tal, qualquer tentativa de investigar e estudar outras matérias no futebol podem tornar-se grandes desafios, algo que não acontece nas outras culturas. Assumindo que a qualidade dos treinadores ingleses não está a um patamar expectável àquele nível, se olharmos para os escalões de formação das academias dos grandes clubes (onde as maiores promessas inglesas jogam), a grande maioria dos treinadores são ingleses e grande parte dos formadores dos cursos de treinadores em Inglaterra são também ingleses, muitos deles já não estão sequer no activo (se os que estão no activo já estão atrasados em termos metodológicos...) e tudo isto leva a que haja um brutal sub-aproveitamento dos talentos locais e que estes acabem por ter mais dificuldades em fazer a transição para o futebol sénior, que é das transições mais difíceis em toda a Europa, dada a qualidade do primeiro escalão.

Num país com uma tremenda tradição futebolística e com instalações as quais em Portugal só podemos sonhar, urge uma medida extrema no que diz respeito à formação de treinadores locais para que o seu potencial seja aproveitado ao máximo, caso contrário continuarão a tentar criar atletas-robotizados (repare-se que escrevi atletas em vez de jogadores) que vão acabar por não ter qualquer expressão no futebol ao mais alto nível, onde a tomada de decisão e cultura táctica assumem papeis preponderantes no sucesso individual e colectivo. E atenção que não digo que se deva ser fundamentalista ao nível metodológico, mesmo tratando-se da periodização táctica, porque nesse caso iremos cair no mesmo erro daqui a alguns anos, quando o futebol evoluir (e está sempre a evoluir). A grande questão aqui é questionarmo-nos sempre sobre aquilo que achamos ser o mais acertado para podermos evoluir com o futebol, aprendendo com os outros e connosco. A periodização táctica é tão acertada agora como o treino analítico o era no século passado, ou seja, apesar de ser das metodologias de maior sucesso na actualidade, se não sofrer alterações, com os anos vai ficar desactualizada porque alguém a vai adaptar aos novos conhecimentos e novos contextos e passar-nos à frente. E como a formação é a galinha dos ovos de ouro do futebol, lembremo-nos que sem ovos não se fazem omeletes.

Foto: www.thefa.com

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Porque não vemos as equipas do melhor campeonato do mundo a dominar a Europa?



Para quem tiver dúvidas, o melhor campeonato do mundo é a Premier League (Liga Inglesa), face à quantidade de estrelas a jogar e à competitividade interna, bem como o interesse que desperta a nível mundial. 

Como é natural, a Premier League tem das maiores receitas publicitárias do mundo do futebol (senão mesmo a maior) e como tal, os clubes têm um grande retorno dessas receitas. Se virmos os valores do ano passado, todos os 20 clubes da Premier League receberam pouco mais de 73.000.000€ (setenta e três milhões de euros), aos quais acresceram os valores relativos à classificação final (pouco menos de 1.700.000€ para o último classificado e 33.700.000€ para o campeão) e ainda os valores que variavam com a quantidade dos jogos em casa que eram transmitidos pela televisão. Posto isto, estamos a falar de valores que variam entre 88.635.107€ (Queens Park Rangers) e 134.958.507€ (Chelsea). Na Liga dos Campeões, uma equipa não podia ganhar mais que 37.400.000€ na época passada, valor que esta época subiu para 54.500.000€ (isto significa vencer todos os jogos, incluindo os da fase de grupos). É normal que com estes valores, as prioridades sejam sempre as competições domésticas, algo que é claro nas Liga Europa e que é compreensível na Liga dos Campeões, principalmente para as equipas que não sejam favoritas ao título.

E comparando aos campeonatos mais fortes na Europa, temos a Bundesliga com apenas 18 equipas (menos jogos por ano) e La Liga (Espanha) com 20 equipas mas um campeonato muito mais polarizado onde a diferença qualitativa das equipas de topo para as restantes é muito grande o que faz com que equipas como Barcelona e Real Madrid (eternos candidatos ao título europeu) possam fazer uma gestão da equipa direcionada para o sucesso na Liga dos Campeões ao contrário das equipas da Premier League que têm um campeonato muito mais competitivo e como tal dificilmente podem fazer poupanças, mesmo frente a equipas do final da tabela.

Desta forma, a ideologia das competições europeias pode induzir-nos em erro uma vez que não podemos comparar o valor de duas equipas quando as mesmas têm um contexto completamente diferente que as faz atribuir prioridades distintas à competição.

(O valor dos prémios monetários da Premier League foram calculados com a taxa de cambio do dia 20 de Novembro de 2015 - 1£ = 1,362948€).

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Quando o Dinheiro Mexe no Jogo

Foto: FIFA Brasil

O futebol é o que é pela paixão que desperta. Os adeptos têm no futebol o expoente máximo emocional das suas vidas e os jogadores são vistos como heróis ou vilões numa dicotomia de extremos. E a competição mundial mais importante em termos futebolísticos é o Campeonato do Mundo que de 4 em 4 anos eleva um plantel de 23 jogadores a lendas e coloca o orgulho de uma nação no ponto mais alto que se lhe pode exigir. Mas pergunto-me várias vezes até que ponto esta paixão vai continuar a alimentar este fenómeno. Preocupam-me seriamente todas as atividades ilícitas que se aproveitam do futebol para benefício próprio, como são os investimentos multimilionários (lavagem de dinheiro?), manipulação de resultados, etc.

É normal que um desporto como o futebol atraia estes problemas. É o desporto mais simples e mais popular do mundo, que abrange um universo que vai desde a pobreza extrema e a riqueza quase ilimitada e como tal, a possibilidade de lucrar é muito grande. A juntarmos o facto de que no futebol são as Federações e as Ligas Profissionais a centralizar todo o capital, a procura do ilícito para obter lucro é ainda maior, até porque é a única forma de o conseguir. O dinheiro funciona no futebol como o petróleo na sociedade, a vida sem ele pára mas é ele que está a poluir o mundo a uma escala nunca antes vista. 

Quando uma criança sonha em jogar futebol, o palco do Campeonato do Mundo é presença obrigatória na sua imaginação. Por isso custa-me compreender como é que uma equipa (jogadores) ameaça não participar num Campeonato do Mundo por uma questão de dinheiro. No Brasil, tivemos os casos da Nigéria (recearam não receber), Gana (quiseram receber em dinheiro vivo) e Camarões (quiseram receber mais do que lhes havia sido prometido). As três seleções ameaçaram não jogar (ou não viajar de todo, no caso dos Camarões) por causa do dinheiro. A primeira relação que podemos observar é que as três equipas representam nações da África Ocidental. Será pela necessidade dos jogadores em receberem o dinheiro? Com a esmagadora maioria dos jogadores destas seleções a jogar na Europa, muito dificilmente será esse o motivo. No site Aljazeera America, Musa Okwonga escreve que a culpa destes comportamentos pode-se estender muito acima dos próprios jogadores. É também na África Ocidental que existem mais casos de corrupção no continente africano e esta reação dos jogadores poderá ser um reflexo dos seus líderes e a clara desconfiança nas suas obrigações.

Será que podemos, ainda assim, condenar os jogadores por colocarem o dinheiro como prioridade nas suas carreiras quando a entidade que gere todo o futebol se assume como uma organização sem fins lucrativos tendo milhares de milhões de euros no banco? No final de contas, a equação é a mesma, somos todos o reflexo de quem nos lidera. Eu pessoalmente compreendo que os jogadores recebam por participar no Campeonato do Mundo, até porque esta é uma competição de uma exigência extrema, não só física mas emocional onde todas as nossas ações são cobradas por toda uma nação e onde estará sempre presente o risco de uma lesão capaz de prejudicar uma carreira, que por si só já é curta mas sem dúvida que o dinheiro não deveria ser a prioridade. Um exemplo perfeito do que é o futebol a agir em prol da sociedade, retribuindo o que esta lhe dá, é a atitude dos jogadores da Grécia que enviaram a seguinte carta ao ministro grego:

"Não queremos prémio extra, ou qualquer dinheiro. Só jogamos pela Grécia e pelo seu povo. Tudo o que queremos é o vosso apoio para criar um centro de treinos que servirá como casa para a nossa seleção nacional"

Quando um adepto gasta dinheiro para viajar com a sua equipa, abdica de tempo com a família para ver a sua equipa e tira dias de férias para poder torcer pela sua equipa, não pode exigir menos que o mesmo empenho da outra parte, dos jogadores que representam a sua equipa e esses jogadores não podem ter no dinheiro o seu principal foco, a sua atenção tem de ir sempre no encontro da ambição e paixão de quem os apoia, dos adeptos, da paixão pelo futebol. E se essa paixão for genuína, o apoio será sempre incondicional. Porque é a paixão que todos procuram no jogo e quando a paixão é partilhada por uma equipa, a magia acontece e o povo agradece.  

domingo, 16 de março de 2014

O Suficiente Não Chega Para a Excelência


Eu tenho algumas dificuldades em ver o treino como outra coisa que não seja procurar a excelência. Acho perfeitamente legítimo que os jogadores não tenham outras ambições com o jogo que não seja divertirem-se e estarem com os amigos, até gosto dessa honestidade que eles têm para com eles mesmos. Confesso que tenho menos paciência para com aqueles que se querem tornar jogadores profissionais, com os que querem chegar à selecção nacional e os que querem ser os melhores do mundo. Tenho menos paciência porque sei o que é preciso para chegar a esse patamar e sei que os jogadores raramente estão dispostos a fazer o que é preciso. E a fórmula é bastante simples, trabalho!

Colocando isto em contas simples, consideremos que para se atingir a excelência precisamos de 10.000 horas de prática (deixemos de parte as controvérsias à volta deste número e imaginemos que será igual para todos). Imaginemos também que o jogador começa a praticar aos 8 anos de idade. Se estamos a falar de excelência, aos 20 anos já tem de estar numa equipa profissional, ou seja, tem 12 anos para atingir um nível que lhe permita competir na alta competição. Desta forma, o jovem tem de acumular 600.000 minutos de futebol, 50.000 minutos por ano, aproximadamente 900 minutos por semana... 2 horas por dia.

Eu como treinador, faço o meu melhor para na hora e meia (que nunca é uma hora e meia) que tenho nos 3 dias de treino por semana (270 minutos) fazer com que o jogador evolua o mais possível. E como estamos numa de imaginar, imaginemos que o jogador dá o seu melhor nesses 270 minutos e é ainda titular no fim-de-semana, faz o jogo todo e dá também o seu máximo (o jogo só tem 90 minutos a partir dos sub-19). São à volta de 350 minutos de boa qualidade futebolística por semana. E vamos também imaginar que os jogadores não têm férias e há treinos nas cerca de 53 semanas do ano. São 350 minutos por semana, que é menos de metade daquilo que tínhamos visto como o necessário para chegar ao topo (900 minutos).

Vamos fazer uma última conta. Precisam de dormir 8 horas, vestir, despir, tomar banho, lavar os dentes, etc., 2 horas (e já se estão a candidatar a Miss Universo com este tempo todo), 7 horas de aulas, 2 horas para refeições (ainda têm tempo para lavar a loiça), 1 hora para estudar (na maior parte das vezes, nem antes dos testes perdem tanto tempo). Das 24 horas, têm 20 horas ocupadas, ainda ofereço de borla mais uma hora para viagens e sobram 3 horas. Destas 3, precisam de 2 para se tornarem os melhores. E quando se quer muito ser o melhor, não precisam de treinador para treinar. Basta tentar fazer aquele drible que viram na televisão, rematar contra uma parede, tentar bater o record de toques, etc.

E é por isto que não costumo ter paciência para os que dizem que querem ser jogadores profissionais, porque normalmente eles passam horas no café com os amigos, perdem noites do fim-de-semana em discotecas e passam tardes a jogar playstation. Para aqueles que se queixam da falta de oportunidades quando chegam a seniores:

"The hard work beats talent when talent fails to work hard." Kevin Durant

Agora imagina que estou a falar de ti e que o 'jogar futebol ao mais alto nível' é uma metáfora para aquilo que sonhas. Porque tudo se resume ao exemplo que damos.

Foto: http://www.inklingsnews.com/e/2013/10/27/athletes-work-hard-on-the-field-and-on-their-studies/

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Domínio Alemão - Quando a Formação Realmente Importa


Como qualquer outro agente desportivo ligado ao futebol minimamente interessado, tenho andado fascinado e curioso sobre a razão do recente sucesso do futebol alemão, que culminou com a final da Liga dos Campeões deste ano. Li uma excelente entrevista do site The Guardian ao diretor desportivo da Federação Alemã de Futebol (DFB) Robin Dutt, onde este fala sobre o plano adotado pela DFB ao longo dos anos (desde 2003) e sobre algumas das mentalidades que existem na Alemanha, direcionadas para o sucesso desportivo de médio/longo prazo.

Uma das principais medidas levadas a cabo pela DFB foi a prospeção feita por 1000 (mil) treinadores que em part-time (todos têm de ter diploma UEFA Basic) são responsáveis por, nas diferentes zonas da Alemanha, identificar e treinar jovens talentos entre os 8 e 14 anos em sessões semanais. Apesar de muitos destes talentos já estarem vinculados a clubes profissionais, alguns ainda estão em clubes locais e estas sessões acabam por servir para outros clubes encontrarem jovens talentos para os seus quadros. Desta forma, a DFB acaba por estar a trabalhar para proveito dos clubes mas são também estes clubes que formam os jogadores para servirem a seleção no futuro pelo que é esta entreajuda entre clubes e Federação que acaba por funcionar como uma simbiose perfeita para o sucesso do país.

Outro aspeto que também me chamou a atenção foi a tremenda importância que dão à formação de treinadores. Eu, como quase todos os meus colegas treinadores a trabalhar em Portugal, estivemos durante os últimos 3 anos privados de continuar a nossa formação profissional através dos cursos de treinador, algo que seria impensável na Alemanha. Existem atualmente na Alemanha, segundo a UEFA, 28400 treinadores com a licença UEFA Basic, 5500 treinadores com a licença UEFA Advanced e 1070 treinadores com a licença UEFA Pro (o nível mais alto). Houve também uma clara mudança de mentalidade no que diz respeito ao trabalho do treinador, havendo uma grande exigência para com as competências dos treinadores, deixando de existir, como o próprio artigo referencia, os "jobs for the boys" onde os ex-jogadores profissionais eram designados automaticamente treinadores pelo seu passado futebolístico. Não quero com isto entrar na velha guerra entre ex-jogadores e licenciados uma vez que tenho conhecido vários ex-jogadores e licenciados que são treinadores de topo, tal como ex-jogadores e licenciados que são treinadores fracos, o importante é que independentemente do passado como jogador, deve haver uma aposta na formação dos treinadores e o próprio treino deve ser visto com mais responsabilidade por parte dos dirigentes desportivos (que também eles, digo eu, deviam preocupar-se na sua própria formação).

Também se desencoraja a procura de talento além-fronteiras por duas simples razões: primeiro, existe sempre uma grande preocupação para com o futuro das seleções de futebol pelo que interessa investir tudo na formação de jogadores alemães; segundo, fica mais caro ir buscar um jogador estrangeiro que utilizar os jogadores do próprio país.

Muitos dos exemplos dados nesta entrevista vieram do Freiburg, clube da Bundesliga que se qualificou para a Liga Europa este ano (a um lugar do apuramento para a Liga dos Campeões), que tem um orçamento salarial de 18 milhões de euros, que fica a uma grande distância por exemplo do Benfica que, segundo o jornal O Jogo, na época passada teve um orçamento de 48 milhões de euros, 500 mil euros mais baixo que o finalista vencido desta edição da Liga dos Campeões, o Borussia de Dortmund. O dinheiro é importante, mas mais importante é a forma como se usa. É preciso tempo para haver mudanças e são precisas grandes mudanças no nosso futebol. Todos vemos o talento da nossa seleção a desvanecer-se com o passar dos anos, valendo-nos (e iludindo-nos) a exceção chamada Cristiano Ronaldo e continuamos a ficar privados da formação de treinadores (devido a guerras de poder entre a Federação Portuguesa de Futebol e o Governo), vemos apostas desenfreadas de talento estrangeiro com grande investimento na prospeção e desenvolvimento de jogadores vindos de fora por força de favores a este ou aquele empresário e dirigentes sem qualquer tipo de visão (e formação), regidos pela sede de sucesso imediato, com medo de perder o apoio dos associados.

Para terem uma ideia mais geral do papel da DFB no desenvolvimento do futebol na Alemanha, coloco novamente aqui o link para poderem ver a entrevista/artigo:

http://www.guardian.co.uk/football/2013/may/23/germany-bust-boom-talent

Foto: USA TODAY Sports

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Causa do Fracasso Desportivo (Uma Questão Social)


Ano após ano, à medida que vou ganhando experiência no mundo do futebol e vou vivenciando diferentes realidades, à medida que vou conhecendo novas pessoas nos diferentes clubes que vou passando, cada vez mais me convenço que sei o que diferencia um bom jogador de um potencial grande jogador, o que diferencia aquele jogador que até é capaz de chegar à equipa sénior de um clube da 1ª Divisão Distrital ou II divisão, daquele que chegará ao profissionalismo e lá se irá manter por vários anos.

Já cheguei a pensar que seria a qualidade técnica, a capacidade de resolver problemas em campo, de se sobrepor aos adversários, de dar vitórias à sua equipa… mas fui vendo vários desses jogadores a perderem-se de uma forma gradual, desinteressando-se pelo jogo e acabando por abandonar quaisquer perspetivas de se tornar profissional de forma perfeitamente banal.

Há não muito tempo, dava quase como certo que seria a capacidade mental do jogador. Há pessoas que simplesmente não conseguem lidar com situações de pressão. Há pessoas que não têm determinação para vencer os obstáculos que vão surgindo na caminhada para o sucesso como por exemplo os sacrifícios, o trabalho duro, a total (sim, total) dedicação pelo sonho, etc. E esta é uma das principais causas para isso, não tenho dúvidas… mas o que faz com que não se tenha esta força mental?

Cada vez mais me convenço que a principal causa é o meio em que estamos inseridos. Não tenho dúvidas que uma criança vai moldando a sua forma de ser, agir e pensar em função de quem o rodeia e de quem este vê como modelos. Hoje em dia é normal ir a uma festa e atingir-se um estado de alcoolémia de que a pessoa se irá orgulhar e partilhar com os colegas para o regozijo dos mesmos. É normal passar horas a jogar computador e tornar-se especialista num desporto eletrónico para que se possa superiorizar aos seus pares nessa atividade. É normal enviar 100 mensagens por dia no telemóvel, falando de absolutamente nada, nunca ficando mais de 10 minutos sem ver o visor de forma a garantir que alguém que nos contacte não fique sem resposta.

Qual é o miúdo que depois de um dia de aulas, vai para as traseiras da sua casa driblar as pedras da calçada ou rematar contra um muro para melhorar como jogador? Durante anos as pessoas queixaram-se que os jovens não apostavam no desporto porque não tinham infraestruturas para o praticar, agora vêm-se essas infraestruturas ao abandono. De quem é a culpa? De quem os obriga a ficar 8h na escola sentados na sala de aula a prestar atenção ao professor (em idades onde focar a atenção em algo por mais de 10 minutos é já um feito considerável)? De quem não deixa os filhos saírem à rua com medo que se constipem ou que sejam atropelados por um carro? De quem acha mais importante proteger a criança e a sua auto-estima em vez de lhe fazer ver que sem trabalhar arduamente se está condenado à mediocridade (fracasso)? De quem ensina que a mediocridade é o sinónimo de humildade e que esse é o caminho a seguir? De todos eles e não só.

Porque é que muitos dos grandes jogadores da história do futebol foram criados em famílias pobres e bairros desfavorecidos? Porque nesses contextos, se não se trabalhar, passa-se fome. Se não se respeitar o próximo, há uma grande probabilidade de um grande grupo de indivíduos nos mostrar que na próxima vez, talvez seja melhor agirmos de forma diferente (e não o fazem através de uma lição moral). Se no campo de futebol alguém nos virar ao contrário, não vai haver ninguém para nos dar a mão, vai, isso sim, haver outra pessoa a entrar no nosso lugar porque o jogo não pode parar. E acima de tudo, não há dinheiro para distrações / diversões que não sejam aquelas que passamos na rua.

Nós somos as pessoas que nos rodeiam. ‘Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’. Nunca esta frase fez tanto sentido. E nos meios pequenos, onde não há grandes casos de sucesso, a mediocridade é o único modelo disponível para os jovens e eles ficam sem saber o que é ter sucesso. E como se explica a um jovem que tem tudo, que leva uma vida confortável que para chegar a jogador profissional tem de abdicar desse conforto para trabalhar arduamente todos os dias da sua vida para chegar mais longe. Que tem de deixar o computador, telemóvel, festas, noitadas, etc. para se dedicar a fundo ao sonho? E acima de tudo isto, será que os jovens estão dispostos a abdicar de tudo isso para chegar a um patamar que inconscientemente e por força de tudo aquilo que conhecem, está totalmente fora do alcance da sua realidade ou contexto?

Não é fácil para um jovem ouvir constantemente os pais a dizerem que estão fartos de lavar roupa suja por estar sempre a jogar à bola, os amigos a não quererem ocupar o tempo com ele porque preferem ir a um café a ir jogar futebol, não é fácil depois de se estar sozinho, enfrentar chuva, frio e vento sozinho sem que ninguém o valorize por isso. É preciso uma força sobre-humana para conseguir fazer todo este caminho e é a um jovem que estamos a pedir isso. E depois é essa mesma sociedade acomodada que exige resultados à seleções nacionais e que critica os jogadores profissionais pela sua ineficiência. A falta de sucesso do nosso país (aos mais vários níveis) é o espelho daquilo que somos.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Crise no Futebol Português



O campeonato da Liga Zon Sagres foi algo atípico, principalmente no fim da época e muito por culpa do União de Leiria que protagonizou um dos momentos mais caricatos (para não dizer vergonhosos) de que há memória, ao entrar para o jogo com o Feirense com apenas 8 jogadores. No entanto, isto é algo pelo qual se esperava há já bastante tempo, após várias ameaças de greves por parte de jogadores de outras equipas que estiveram em condições semelhantes. Há a tentação de culpar os jogadores que fizeram greve pela falta de profissionalismo, ou de culpar os jogadores que jogaram por falta de solidariedade para com os colegas quando a culpa é da irresponsabilidade dos dirigentes. 

Mas é importante referir que este caso não está sequer isolado nas nossas ligas profissionais e existem outras equipas que estão ou estiveram a determinada altura da época em incumprimento para com os seus jogadores, sendo que as mesmas conseguiram a manutenção (como o Vitória Futebol Clube e o Vitória Sport Clube). Em contrapartida, clubes que fazem uma gestão responsável do seu capital, fazendo um bom planeamento da época em função da sua dimensão e capacidade financeira acabam por ser relegadas, tal como aconteceu este ano com o Feirense ou na época 2008/2009 com o Trofense. 

No futebol há uma lógica relação entre a folha salarial e o rendimento de uma equipa, sendo que quanto mais se paga aos jogadores, melhor equipa se terá, e isto vê-se em todos os campeonatos do mundo, exceptuando qualquer tipo de desvio padrão que possa existir por força de uma boa gestão. Desta forma, a não punição das equipas incumpridoras é um reforço positivo à desonestidade e irresponsabilidade, e um tremendo desrespeito para com os ativos desportivos dos clubes e demais funcionários. 

No fim da época passada desejei sinceramente que estes episódios acabassem e que se criasse alguma regulamentação que controle a atuação financeira dos clubes (se eles não sabem tratar deles próprios, alguém que o faça) mas parece que desta vez os clubes nem esperam pelo início da época. O Varzim já abdicou da Segunda Liga, vamos ver quem se segue…