A Arte do Futebol

domingo, 13 de junho de 2010

Capacidade de Observação

É uma grande preocupação minha e algo que tento melhorar constantemente. Não considero que uma melhor capacidade de observação consista em conseguir recolher mais informação por unidade de tempo mas sim recolher informação mais correcta e pertinente por unidade de tempo.

Se queremos observar algo, é importante saber o que se quer observar. A primeira regra é tão simples como isto. Se ligarmos a TV para ver um jogo de futebol com o objectivo de analisar o jogo, a informação que vamos reter no fim do mesmo é apenas o resultado (por vezes nem isso fica). É imperativo que se saiba o que se vai observar. Podem ser os diferentes sistemas tácticos e as suas variações, movimentações padrão de determinados jogadores, etc. Se for preciso, faz-se uma lista daquilo que se quer observar ao longo do jogo.

Apesar do mito existente de que o Ser-Humano (nomeadamente as mulheres) conseguem realizar várias actividades ao mesmo tempo, nós apenas conseguimos realizar uma coisa de cada vez, o que acontece por vezes é que alternamos várias actividades num curto espaço de tempo mas isso só vai implicar que o nosso foco de atenção seja dividido entre as tarefas e assim perdemos eficácia na realização das mesmas.

Precisamos então de jogar com esta 'matemática'. Podemos observar apenas os sistemas tácticos durante todo o jogo e conseguimos 100% de eficácia nessa observação. Podemos também observar os sistemas tácticos e as movimentações nos pontapés de canto e conseguimos 50% de eficácia nos dados. Mas podemos observar nos primeiros minutos os sistemas tácticos e no resto do tempo as movimentações dos pontapés de canto e ficamos novamente com 100% de eficácia nos dados, mas ignoramos uma boa unidade de tempo de análise de ambos os factores. Ou então eu posso estar errado e nada disto faz sentido, ainda assim acredito que tentar observar coisas diferentes ao mesmo tempo é sobrecarregar o nosso cérebro com informação. (Nota: as percentagens foram inventadas por mim e não têm qualquer fundamento científico, nem tão pouco eu acredito nelas, servem só como exemplo).

Os nossos antepassados tinham o foco de atenção em 3 coisas muito simples: segurança, alimentação e reprodução. Hoje em dia temos o nosso cérebro poluído com informação. Precisamos de nos preocupar com segurança, alimentação, reprodução, finanças, saúde, emprego, trânsito, compras, etc... a evolução é algo que leva milhares de anos e o nosso cérebro ainda não conseguiu adaptar-se a este ritmo alucinante da sociedade moderna.

Para além de se saber o objecto da nossa observação, é também preciso possuir conhecimento acerca do que se quer observar. Não adianta dizerem-me para observar as movimentações dos jogadores de futebol americano quando eu não domino os aspectos tácticos do jogo.

Por fim, é preciso experiência, aquela característica que não se compra nem se estuda, vive-se... e como tudo na vida, pode ser boa ou má, rica ou pobre. Um jogador que esteve toda a vida a jogar futebol amador onde os seus treinadores tinham um modelo de jogo que consistia em 'bater para a frente e seja o que Deus quiser' não vai ter a mesma experiência que um jogador que jogou sempre no futebol profissional onde os seus treinadores tinham modelos de jogo coerentes e bem elaborados.

Se tivermos maus mentores, vamos aprender a fazer as coisas mal, vamos adquirir uma má e pobre experiência, se tivermos bons mentores, vamos aprender a fazer as coisas bem, vamos ter uma experiência rica.

Ainda assim, acredito que haja muitos outros factores a ter em conta para se conseguir uma boa observação de um jogo (ou de qualquer outra coisa), no entanto são estes os que eu acho mais importantes.

(Foto de Paul Guilham - FIFA/FIFA via Getty Images)

Sem comentários: