A Arte do Futebol

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Criatividade Aprisionada


Estive uma semana fora, num torneio de futebol em Espanha ao serviço de uma escola de futebol. Era um torneio onde várias equipas da nossa escola de futebol (mais de 100 jogadores) participavam, nos vários escalões (até sub-14), na forma de futebol 7.

No entanto este texto não é para falar sobre a prestação das equipas no torneio (até porque aquilo não correu muito bem para a equipa que eu estava a orientar) mas sim de algo muito mais interessante que eu vi constantemente acontecer ao longo de toda a semana.

Ficámos todos hospedados no Monte do Gozo, uma espécie de pousada da juventude. Normalmente cada equipa tinha um jogo de manhã e outro de tarde, num campo há distância de uma curta viagem de autocarro, o que fazia com que tivessem muito tempo livre para fazerem o que quisessem. Aí eu tive a confirmação daquela que eu defendia ser a razão a qual a nossa sociedade urbana está a 'enfraquecer' as pessoas ao nível físico e social. Porquê? Porque vivemos num mundo de facilitismo para as crianças. Se um qualquer jovem quer passar o tempo, basta ligar a TV (seja para ver um programa ou para jogar Playstation ou qualquer coisa que o valha) ou ligar o computador para jogar um jogo e tem também todos os amigos ao alcance de um click nas várias redes sociais, softwares de mensagens instantâneas, etc.

Durante esta semana, os computadores e as consolas de jogos estavam fora do alcance dos jovens (ou pelo menos da maior parte delas, porque as consolas portáteis são o novo flagelo da tecnologia) e a maior parte dos passatempos eram feitos com os colegas. Viam-se bandos de jovens a patrulhar toda a área do Monte do Gozo com as mais diversas brincadeiras e passatempos, onde o mais praticado, era obviamente, o futebol. E como no complexo em que estávamos hospedados não havia bolas de futebol e havia apenas um campo (em péssimo estado), bolas eram improvisadas e balizas criadas do nada para que se pudessem realizar os jogos. É incrível ver a criatividade dos jovens a funcionar quanto não estão hipnotizados pela nova tecnologia que os envolve no dia-a-dia.

Agora imaginem um mundo sem computadores nem televisão para os jovens, onde a casa se tornava apenas um local para dormir e comer, conviviam diariamente com os amigos e jogavam muito futebol (ou qualquer outra coisa que lhes interessasse). Se alguém acha estranho o facto da esmagadora maioria dos jogadores de classe mundial ser oriunda de classes sociais mais pobres, acho que este texto explica muito bem o porquê de isso acontecer. A sociedade vai no sentido de nos facilitar a resolução de problemas onde é preciso pensar cada vez menos para tratar do que quer que seja. A criatividade está a tornar-se um extra desnecessário no desenvolvimento dos jovens. E falando no caso específico do futebol, o tempo de prática está a reduzir-se aos treinos e jogos no seu clube o que é extremamente curto para alguém que ambiciona ser um grande jogador de futebol.

Sem comentários: