A Arte do Futebol

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vantagens e Desvantagens da Multiculturalidade do Futebol Nacional



Li há uns dias, no blog Frontal Cortex, do Jonah Lehrer, um texto que foi baseado num outro texto de Ross Douthat publicado no que aparenta ser o seu blog no New York Times, texto esse que por sua vez foi baseado num livro de Christopher Lasch de título “The Revolt of The Elites”… penso que não deixei ninguém para trás. Mas vamos ao que interessa.

A ideia chave destes dois textos (refiro-me ao de Jonah Lehrer e Ross Douthat pois nunca li o livro de Christopher Lasch) baseia-se numa crítica feita à meritocracia. Esta faz com que os alunos com melhor desempenho escolar assumam os cargos de maior importância no país (seja em que área for, e ignorando o ‘factor c’, os alunos com médias mais altas serão favorecidos em detrimento dos outros). Esta ideia parecia-me perfeitamente lógica pois esses alunos serão os mais qualificados nas respectivas áreas, no entanto esses alunos serão, segundo as palavras de Ross Douthat, “intelectualmente conformistas” que “tendem a juntar-se entre eles em vez de se separarem para enriquecer o país como um todo.” Não quer ele dizer que se tendem a juntar de uma forma física ou geográfica mas sim em termos de ideias e conceitos. Afinal de contas, o programa de estudos de economia, por exemplo, no ensino superior, será bastante idêntico em todos os estabelecimentos de ensino e como tal, os melhores alunos serão de certa forma ‘homogéneos’ em termos de conhecimentos).

No que diz respeito a esta junção de pessoas relativamente a ideias e conhecimentos, é algo que acontece naturalmente à nossa volta e que pode ser comprovado num estudo de Paul Ingram e Michael Morris referido por Jonah Lehrer. As pessoas tendem a juntar-se a quem pensa e age da mesma forma que elas. Mas Jonah refere no mesmo texto outro estudo de Martin Ruef que mostra a importância de interagirmos com pessoas que pensam de forma diferente. Afirma que empresários com uma rede de contactos variada são 3 vezes mais inovadores que os empresários com redes de contacto homogéneas.

E posta esta introdução, falemos de futebol!

É certo e sabido que existem várias culturas futebolísticas em todo o mundo. Estejam elas divididas em países ou regiões. Temos os brasileiros com um futebol tecnicista, os ingleses com o futebol directo, os nórdicos com o futebol mais físico, etc. Porque é que há esta predominância de estilos em determinadas zonas e não uma mistura de todas as culturas? Porque os treinadores brasileiros, tendo crescido dentro da cultura futebolística brasileira, dão preferência ao futebol tecnicista e os próprios jogadores brasileiros, tendo crescido nessa mesma cultura, tentam ser como os modelos que vêm no seu futebol. Desta forma cria-se uma homogeneidade em termos de estilos. Isto será positivo? Os brasileiros, com 6 mundiais ganhos, diram que sim. Eu sinceramente não sei. Se eu adaptar as conclusões de Martin Ruef ao futebol, diria que ter diferentes tipos de jogadores num clube, ou diferentes ícones do futebol no país, seria uma forma de aumentar o leque de opções para aumentar também a capacidade de inovação táctica por parte dos treinadores, o que me faria inevitavelmente defender a inclusão de jogadores estrangeiros no futebol português. Mas não o faço, não por uma questão de xenofobia mas porque sei que esta é uma forma de restringir as oportunidades dos jogadores portugueses. Os clubes sairiam a ganhar, a selecção ficaria a perder. Vemos os clubes brasileiros com uma percentagem de jogadores brasileiros superior a 90% mas com uma qualidade inferior à dos clubes europeus (baseio-me no número de conquistas europeias da antiga Taça Intercontinental e actual Campeonato Mundial de Clubes), mas a selecção é a que tem mais títulos a nível mundial. E agora analisamos os grandes clubes europeus e a respectiva percentagem de jogadores nativos nos seus planteis... em alguns casos, chega a ser ridiculamente reduzida.

Com a introdução de novas regras de restrição na inscrição de jogadores nas equipas dos campeonatos portugueses, facilmente as equipas aumentariam drasticamente a percentagem de jogadores portugueses mas a questão é, qual deve ser a nossa prioridade, clubes ou selecção nacional?

Outra solução seria a UEFA restringir ainda mais a inscrição de jogadores estrangeiros na Liga dos Campeões ou na Liga Europa, até porque vemos actualmente listas de jogadores enviadas pelos clubes para a UEFA, com jogadores que nem sequer treinam com a equipa principal (normalmente jogadores ainda a actuar na formação), só para poderem preencher os requisitos mínimos de jogadores nacionais e/ou formados no clube. Se essas regras fossem iguais em todo o mundo, os clubes não saíam a perder e as selecções só tinham a ganhar.

E para que este cenário ficasse perfeito, só faltava a FIFA entrar em acção no que diz respeito à naturalização de jogadores, caso contrário, gira o disco e toca o mesmo.

1 comentário:

Pentacúspide disse...

Não há como escapar ao nacionalismo. Por outro lado também que sentido tem os franceses publicitarem tanto a sua bandeira e quando o vão defender no estádio apresentarem-se com um plantel de 16 senegaleses? O futebol é a guerra mais civilizada que os países têm feito ultimamente, mostrando que o primeiro grego que pensou os "jogos olímpicos", leia-se competição desportiva para unificação dos povos, pensou-o muito bem.
Pois, se o futebol é, de qualquer maneira, um gerador de empregos - embora embora eu seja contra o absurdo do dinheiro que movimente, considerando o "bem" que faz para a sociedade -, emprego esse não justo, se tivermos em conta que durante 90 minutos duas pessoas vão fazer o mesmo trabalho no mesmo local e apesar disso vão receber salários superdesiguais (ok! pode dizer-se que o que recebe mais fá-lo por mérito, mas eu duvido dessa justiça, porque são precisos as 22 pessoas no campo para o espectáculo ficar completo)... já estou a perder o fio... enfim... fazer o quê contra o capitalismo?