A Arte do Futebol

domingo, 8 de maio de 2011

Calendarizações Para Todos os Gostos (Exepto Para o Espectáculo)


A forma como está regulamentada uma competição é habitualmente uma questão cultural dos diferentes países. Nós estamos habituados a uma calendarização anual, chamemos-lhe 'europeia', onde os campeonatos são decididos após um longo percurso em que todas as equipas da mesma competição jogam entre si duas vezes em ambos os campos. Na Major League Soccer (Estados Unidos), por exemplo, existe uma fase regular dividida em duas conferências (Este e Oeste) onde todas as equipas de ambas as conferências jogam entre si duas vezes em ambos os campos e depois apuram-se 8 para os playoffs (a fase regular define o campeão de cada conferência e os playoffs o campeão americano).

Em ambos os casos, estas calendarizações estão enraizadas nas culturas dos países (nos Estados Unidos este molde funciona em quase todos os desportos) e há portanto uma coerência nesse aspecto. Isto torna a compreensão do desporto nacional muito mais fácil e aumenta também o interesse de adeptos de outros desportos, ou pelo menos, não dificulta a discussão dos mesmos. No entanto pergunto, porque é que em Portugal não há essa coerência, não só ao nível das várias modalidades mas principalmente, ao nível da mesma (o futebol) nas várias divisões?

A Liga Profissional de Futebol que controla as duas primeiras divisões portuguesas, opta por um campeonato de regularidade com o tal formato 'europeu' que referi anteriormente. A 2ª Divisão (que na prática é a 3ª divisão, que é gerida pela Federação Portuguesa de Futebol) já está dividida em 3 séries (o que é compreensível devido aos encargos financeiros das viagens longas) onde apenas o 1º lugar tem hipótese de subir... apesar de a subida não ser garantida porque ainda há uma liga a 3, com os 3 primeiros classificados, para garantir os 2 que sobem. Ou seja, depois de 30 jogos onde tudo corre bem e se consegue, com muito trabalho, o 1º lugar, pode-se ter o azar de algo acontecer no fim de época (sejam lesões, castigos, etc.) e o trabalho de uma época vai por água abaixo. Vamos para a 3ª Divisão, também gerida pela Federação Portuguesa de Futebol, e o formato já é completamente diferente, bem como o número de séries. Descemos mais um pouco, para as Distritais, e para além do número de divisões e séries serem diferentes de Distrito para Distrito, também os formatos podem diferir pois cada Região tem as competições à responsabilidade das respectivas Associações de Futebol. E descemos de escalão, para a formação e voltam as coisas a serem diferentes, até dentro da mesma Associação de Futebol, com formatos que nem me atrevo a explicar.

Compreendo que as entidades que gerem as respectivas competições se preocupem com o facto de a situação económica dos clubes não ser a mais fácil (a maior parte deles, por má gestão, ou seja, por culpa própria) mas com todas estas trocas, acredito também que estão a descontar no espectáculo, retirando o interesse nas respectivas competições... o que vai fazer com que haja menos financiadores e que as situações económicas se continuem a agravar. Faz lembrar a situação económica do nosso país onde se fazem créditos para pagar dívidas...

No início o futebol jogava-se pelo espectáculo que era, depois passou-se a explorar o espectáculo para fazer dinheiro e agora gere-se o espectáculo para não se perder dinheiro. É a cultura dos remendos. Com tantas questões acerca do futuro profissional dos jovens, com os mercados de trabalho saturados, será que ainda ninguém percebeu que no futebol há uma carência abismal ao nível do dirigismo desportivo?

Imagem: http://www.gamespot.com/forums/topic/26436628/itt-images-56k--no?page=2

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