A Arte do Futebol

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Prática é o Filtro da Teoria

Não sou muito fã de clichés (para não dizer que os odeio) mas ultimamente tenho pensado muito num, teoria vs prática. É algo que se tem discutido muito e eu, apesar de ser um adepto fervoroso da prática, não posso deixar de dar tremenda importância há teoria, uma não deve existir sem a outra.

Falando em percentagens (todos adoramos percentagens), dou cerca de 50% de importância à prática e à teoria mas há algo que me aborrece muito em alguns teóricos. Para estes, um estudo científico é soberano e devemos apenas realizar algo que esteja estudado e comprovado pela comunidade científica. Falando no futebol, acho que uma pessoa que não esteja ligado ao meio não deve sequer estudá-lo. O mundo do futebol tem de ser visto como um todo e o que os estudos científicos fazem é cortá-lo às fatias e estudar cada uma delas separadamente. Isso é o mesmo que pegar num automóvel, desmontá-lo nas milhares de peças que o compõem, estudar cada uma delas e esperar que isso permita perceber como o carro se comporta numa curva apertada, de noite, com nevoeiro numa estrada molhada a 85 km/h. Evidentemente que os estudos são importantes, muito se evoluiu em termos das ciências do desporto e o futebol ganhou muito à conta disso mas é importante que se acompanhe a evolução teórica com uma grande dose de prática.

Eu quando acabei o curso de Ciências do Desporto na faculdade era um daqueles treinadores que tinham na cabeça um sem número de fundamentos a nível de treino, dinâmicas de carga, psicologia, etc. mas pouco sabia do fenómeno futebolístico. Na faculdade ensinaram-me a potenciar as capacidades físicas de um jogador mas não me disseram que ia ter um plantel com 20 jogadores, todos eles com diferentes características e necessidades. Disseram-me como treinar determinadas características em função do modelo de jogo mas não me disseram que durante a maior parte do tempo vou ter apenas meio-campo disponível, uma baliza e um número incerto de jogadores em cada treino. Só quando começamos a trabalhar no campo, quando começamos a trabalhar dentro do fenómeno futebolístico, é que conseguimos adaptar a aprendizagem teórica à realidade.

Na minha opinião, a prática é o filtro da teoria. De todo o conhecimento acerca de futebol que nos rodeia, apenas alguns aspectos são compatíveis, tudo depende da nossa forma de ver o fenómeno, do nosso estilo e das nossas preferências. Sem trabalhar na prática, tudo aquilo que aprendermos se vai acumular de forma desorganizada e, por vezes, contraditória na nossa cabeça.

Acredito que esta perspectiva se adequa a todos os campos do conhecimento no nosso mundo. Como escreveu John C. Maxwell, "o objectivo de toda a aprendizagem é a acção, não o conhecimento".

Foto: http://www.grandefm.com.br/esportes/grupo-armado-assalta-ct-de-futebol-do-corinthians-em-sp-diz-policia

1 comentário:

Pentacúspide disse...

interessante analogia essa do carro, vou pegar emprestado. na realidade, estou a ver que essa é uma questão comum tanto para a tua área como para a minha, arquitectura, porém, acho que há supermenos controlo na tua do que na minha, porque eu tenho de gerir coisas estáticas, enquanto tu tens de lidar com grupo de pessoas, que dependem de uma carga física aliada a uma carga emocional que flutuam constantemente... muito caótico, e onde vem influir outro grupo exterior e "dinâmico" cujo procedimento e reacção não se pode prever. Trabalho lixado o de vocês.