A Arte do Futebol

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Causa do Fracasso Desportivo (Uma Questão Social)


Ano após ano, à medida que vou ganhando experiência no mundo do futebol e vou vivenciando diferentes realidades, à medida que vou conhecendo novas pessoas nos diferentes clubes que vou passando, cada vez mais me convenço que sei o que diferencia um bom jogador de um potencial grande jogador, o que diferencia aquele jogador que até é capaz de chegar à equipa sénior de um clube da 1ª Divisão Distrital ou II divisão, daquele que chegará ao profissionalismo e lá se irá manter por vários anos.

Já cheguei a pensar que seria a qualidade técnica, a capacidade de resolver problemas em campo, de se sobrepor aos adversários, de dar vitórias à sua equipa… mas fui vendo vários desses jogadores a perderem-se de uma forma gradual, desinteressando-se pelo jogo e acabando por abandonar quaisquer perspetivas de se tornar profissional de forma perfeitamente banal.

Há não muito tempo, dava quase como certo que seria a capacidade mental do jogador. Há pessoas que simplesmente não conseguem lidar com situações de pressão. Há pessoas que não têm determinação para vencer os obstáculos que vão surgindo na caminhada para o sucesso como por exemplo os sacrifícios, o trabalho duro, a total (sim, total) dedicação pelo sonho, etc. E esta é uma das principais causas para isso, não tenho dúvidas… mas o que faz com que não se tenha esta força mental?

Cada vez mais me convenço que a principal causa é o meio em que estamos inseridos. Não tenho dúvidas que uma criança vai moldando a sua forma de ser, agir e pensar em função de quem o rodeia e de quem este vê como modelos. Hoje em dia é normal ir a uma festa e atingir-se um estado de alcoolémia de que a pessoa se irá orgulhar e partilhar com os colegas para o regozijo dos mesmos. É normal passar horas a jogar computador e tornar-se especialista num desporto eletrónico para que se possa superiorizar aos seus pares nessa atividade. É normal enviar 100 mensagens por dia no telemóvel, falando de absolutamente nada, nunca ficando mais de 10 minutos sem ver o visor de forma a garantir que alguém que nos contacte não fique sem resposta.

Qual é o miúdo que depois de um dia de aulas, vai para as traseiras da sua casa driblar as pedras da calçada ou rematar contra um muro para melhorar como jogador? Durante anos as pessoas queixaram-se que os jovens não apostavam no desporto porque não tinham infraestruturas para o praticar, agora vêm-se essas infraestruturas ao abandono. De quem é a culpa? De quem os obriga a ficar 8h na escola sentados na sala de aula a prestar atenção ao professor (em idades onde focar a atenção em algo por mais de 10 minutos é já um feito considerável)? De quem não deixa os filhos saírem à rua com medo que se constipem ou que sejam atropelados por um carro? De quem acha mais importante proteger a criança e a sua auto-estima em vez de lhe fazer ver que sem trabalhar arduamente se está condenado à mediocridade (fracasso)? De quem ensina que a mediocridade é o sinónimo de humildade e que esse é o caminho a seguir? De todos eles e não só.

Porque é que muitos dos grandes jogadores da história do futebol foram criados em famílias pobres e bairros desfavorecidos? Porque nesses contextos, se não se trabalhar, passa-se fome. Se não se respeitar o próximo, há uma grande probabilidade de um grande grupo de indivíduos nos mostrar que na próxima vez, talvez seja melhor agirmos de forma diferente (e não o fazem através de uma lição moral). Se no campo de futebol alguém nos virar ao contrário, não vai haver ninguém para nos dar a mão, vai, isso sim, haver outra pessoa a entrar no nosso lugar porque o jogo não pode parar. E acima de tudo, não há dinheiro para distrações / diversões que não sejam aquelas que passamos na rua.

Nós somos as pessoas que nos rodeiam. ‘Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’. Nunca esta frase fez tanto sentido. E nos meios pequenos, onde não há grandes casos de sucesso, a mediocridade é o único modelo disponível para os jovens e eles ficam sem saber o que é ter sucesso. E como se explica a um jovem que tem tudo, que leva uma vida confortável que para chegar a jogador profissional tem de abdicar desse conforto para trabalhar arduamente todos os dias da sua vida para chegar mais longe. Que tem de deixar o computador, telemóvel, festas, noitadas, etc. para se dedicar a fundo ao sonho? E acima de tudo isto, será que os jovens estão dispostos a abdicar de tudo isso para chegar a um patamar que inconscientemente e por força de tudo aquilo que conhecem, está totalmente fora do alcance da sua realidade ou contexto?

Não é fácil para um jovem ouvir constantemente os pais a dizerem que estão fartos de lavar roupa suja por estar sempre a jogar à bola, os amigos a não quererem ocupar o tempo com ele porque preferem ir a um café a ir jogar futebol, não é fácil depois de se estar sozinho, enfrentar chuva, frio e vento sozinho sem que ninguém o valorize por isso. É preciso uma força sobre-humana para conseguir fazer todo este caminho e é a um jovem que estamos a pedir isso. E depois é essa mesma sociedade acomodada que exige resultados à seleções nacionais e que critica os jogadores profissionais pela sua ineficiência. A falta de sucesso do nosso país (aos mais vários níveis) é o espelho daquilo que somos.

2 comentários:

vitorugo disse...

nunca na tua vida falas-te tão bem!! bem-dita a hora que te vi postar estes palavras sábias no facebook...
grande Telmo
abraço

João Oliveira disse...

Contra factos não há argumentos!!