A Arte do Futebol

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Domínio Alemão - Quando a Formação Realmente Importa


Como qualquer outro agente desportivo ligado ao futebol minimamente interessado, tenho andado fascinado e curioso sobre a razão do recente sucesso do futebol alemão, que culminou com a final da Liga dos Campeões deste ano. Li uma excelente entrevista do site The Guardian ao diretor desportivo da Federação Alemã de Futebol (DFB) Robin Dutt, onde este fala sobre o plano adotado pela DFB ao longo dos anos (desde 2003) e sobre algumas das mentalidades que existem na Alemanha, direcionadas para o sucesso desportivo de médio/longo prazo.

Uma das principais medidas levadas a cabo pela DFB foi a prospeção feita por 1000 (mil) treinadores que em part-time (todos têm de ter diploma UEFA Basic) são responsáveis por, nas diferentes zonas da Alemanha, identificar e treinar jovens talentos entre os 8 e 14 anos em sessões semanais. Apesar de muitos destes talentos já estarem vinculados a clubes profissionais, alguns ainda estão em clubes locais e estas sessões acabam por servir para outros clubes encontrarem jovens talentos para os seus quadros. Desta forma, a DFB acaba por estar a trabalhar para proveito dos clubes mas são também estes clubes que formam os jogadores para servirem a seleção no futuro pelo que é esta entreajuda entre clubes e Federação que acaba por funcionar como uma simbiose perfeita para o sucesso do país.

Outro aspeto que também me chamou a atenção foi a tremenda importância que dão à formação de treinadores. Eu, como quase todos os meus colegas treinadores a trabalhar em Portugal, estivemos durante os últimos 3 anos privados de continuar a nossa formação profissional através dos cursos de treinador, algo que seria impensável na Alemanha. Existem atualmente na Alemanha, segundo a UEFA, 28400 treinadores com a licença UEFA Basic, 5500 treinadores com a licença UEFA Advanced e 1070 treinadores com a licença UEFA Pro (o nível mais alto). Houve também uma clara mudança de mentalidade no que diz respeito ao trabalho do treinador, havendo uma grande exigência para com as competências dos treinadores, deixando de existir, como o próprio artigo referencia, os "jobs for the boys" onde os ex-jogadores profissionais eram designados automaticamente treinadores pelo seu passado futebolístico. Não quero com isto entrar na velha guerra entre ex-jogadores e licenciados uma vez que tenho conhecido vários ex-jogadores e licenciados que são treinadores de topo, tal como ex-jogadores e licenciados que são treinadores fracos, o importante é que independentemente do passado como jogador, deve haver uma aposta na formação dos treinadores e o próprio treino deve ser visto com mais responsabilidade por parte dos dirigentes desportivos (que também eles, digo eu, deviam preocupar-se na sua própria formação).

Também se desencoraja a procura de talento além-fronteiras por duas simples razões: primeiro, existe sempre uma grande preocupação para com o futuro das seleções de futebol pelo que interessa investir tudo na formação de jogadores alemães; segundo, fica mais caro ir buscar um jogador estrangeiro que utilizar os jogadores do próprio país.

Muitos dos exemplos dados nesta entrevista vieram do Freiburg, clube da Bundesliga que se qualificou para a Liga Europa este ano (a um lugar do apuramento para a Liga dos Campeões), que tem um orçamento salarial de 18 milhões de euros, que fica a uma grande distância por exemplo do Benfica que, segundo o jornal O Jogo, na época passada teve um orçamento de 48 milhões de euros, 500 mil euros mais baixo que o finalista vencido desta edição da Liga dos Campeões, o Borussia de Dortmund. O dinheiro é importante, mas mais importante é a forma como se usa. É preciso tempo para haver mudanças e são precisas grandes mudanças no nosso futebol. Todos vemos o talento da nossa seleção a desvanecer-se com o passar dos anos, valendo-nos (e iludindo-nos) a exceção chamada Cristiano Ronaldo e continuamos a ficar privados da formação de treinadores (devido a guerras de poder entre a Federação Portuguesa de Futebol e o Governo), vemos apostas desenfreadas de talento estrangeiro com grande investimento na prospeção e desenvolvimento de jogadores vindos de fora por força de favores a este ou aquele empresário e dirigentes sem qualquer tipo de visão (e formação), regidos pela sede de sucesso imediato, com medo de perder o apoio dos associados.

Para terem uma ideia mais geral do papel da DFB no desenvolvimento do futebol na Alemanha, coloco novamente aqui o link para poderem ver a entrevista/artigo:

http://www.guardian.co.uk/football/2013/may/23/germany-bust-boom-talent

Foto: USA TODAY Sports

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