A Arte do Futebol

domingo, 16 de março de 2014

O Suficiente Não Chega Para a Excelência


Eu tenho algumas dificuldades em ver o treino como outra coisa que não seja procurar a excelência. Acho perfeitamente legítimo que os jogadores não tenham outras ambições com o jogo que não seja divertirem-se e estarem com os amigos, até gosto dessa honestidade que eles têm para com eles mesmos. Confesso que tenho menos paciência para com aqueles que se querem tornar jogadores profissionais, com os que querem chegar à selecção nacional e os que querem ser os melhores do mundo. Tenho menos paciência porque sei o que é preciso para chegar a esse patamar e sei que os jogadores raramente estão dispostos a fazer o que é preciso. E a fórmula é bastante simples, trabalho!

Colocando isto em contas simples, consideremos que para se atingir a excelência precisamos de 10.000 horas de prática (deixemos de parte as controvérsias à volta deste número e imaginemos que será igual para todos). Imaginemos também que o jogador começa a praticar aos 8 anos de idade. Se estamos a falar de excelência, aos 20 anos já tem de estar numa equipa profissional, ou seja, tem 12 anos para atingir um nível que lhe permita competir na alta competição. Desta forma, o jovem tem de acumular 600.000 minutos de futebol, 50.000 minutos por ano, aproximadamente 900 minutos por semana... 2 horas por dia.

Eu como treinador, faço o meu melhor para na hora e meia (que nunca é uma hora e meia) que tenho nos 3 dias de treino por semana (270 minutos) fazer com que o jogador evolua o mais possível. E como estamos numa de imaginar, imaginemos que o jogador dá o seu melhor nesses 270 minutos e é ainda titular no fim-de-semana, faz o jogo todo e dá também o seu máximo (o jogo só tem 90 minutos a partir dos sub-19). São à volta de 350 minutos de boa qualidade futebolística por semana. E vamos também imaginar que os jogadores não têm férias e há treinos nas cerca de 53 semanas do ano. São 350 minutos por semana, que é menos de metade daquilo que tínhamos visto como o necessário para chegar ao topo (900 minutos).

Vamos fazer uma última conta. Precisam de dormir 8 horas, vestir, despir, tomar banho, lavar os dentes, etc., 2 horas (e já se estão a candidatar a Miss Universo com este tempo todo), 7 horas de aulas, 2 horas para refeições (ainda têm tempo para lavar a loiça), 1 hora para estudar (na maior parte das vezes, nem antes dos testes perdem tanto tempo). Das 24 horas, têm 20 horas ocupadas, ainda ofereço de borla mais uma hora para viagens e sobram 3 horas. Destas 3, precisam de 2 para se tornarem os melhores. E quando se quer muito ser o melhor, não precisam de treinador para treinar. Basta tentar fazer aquele drible que viram na televisão, rematar contra uma parede, tentar bater o record de toques, etc.

E é por isto que não costumo ter paciência para os que dizem que querem ser jogadores profissionais, porque normalmente eles passam horas no café com os amigos, perdem noites do fim-de-semana em discotecas e passam tardes a jogar playstation. Para aqueles que se queixam da falta de oportunidades quando chegam a seniores:

"The hard work beats talent when talent fails to work hard." Kevin Durant

Agora imagina que estou a falar de ti e que o 'jogar futebol ao mais alto nível' é uma metáfora para aquilo que sonhas. Porque tudo se resume ao exemplo que damos.

Foto: http://www.inklingsnews.com/e/2013/10/27/athletes-work-hard-on-the-field-and-on-their-studies/

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