A Arte do Futebol

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Quando o Dinheiro Mexe no Jogo

Foto: FIFA Brasil

O futebol é o que é pela paixão que desperta. Os adeptos têm no futebol o expoente máximo emocional das suas vidas e os jogadores são vistos como heróis ou vilões numa dicotomia de extremos. E a competição mundial mais importante em termos futebolísticos é o Campeonato do Mundo que de 4 em 4 anos eleva um plantel de 23 jogadores a lendas e coloca o orgulho de uma nação no ponto mais alto que se lhe pode exigir. Mas pergunto-me várias vezes até que ponto esta paixão vai continuar a alimentar este fenómeno. Preocupam-me seriamente todas as atividades ilícitas que se aproveitam do futebol para benefício próprio, como são os investimentos multimilionários (lavagem de dinheiro?), manipulação de resultados, etc.

É normal que um desporto como o futebol atraia estes problemas. É o desporto mais simples e mais popular do mundo, que abrange um universo que vai desde a pobreza extrema e a riqueza quase ilimitada e como tal, a possibilidade de lucrar é muito grande. A juntarmos o facto de que no futebol são as Federações e as Ligas Profissionais a centralizar todo o capital, a procura do ilícito para obter lucro é ainda maior, até porque é a única forma de o conseguir. O dinheiro funciona no futebol como o petróleo na sociedade, a vida sem ele pára mas é ele que está a poluir o mundo a uma escala nunca antes vista. 

Quando uma criança sonha em jogar futebol, o palco do Campeonato do Mundo é presença obrigatória na sua imaginação. Por isso custa-me compreender como é que uma equipa (jogadores) ameaça não participar num Campeonato do Mundo por uma questão de dinheiro. No Brasil, tivemos os casos da Nigéria (recearam não receber), Gana (quiseram receber em dinheiro vivo) e Camarões (quiseram receber mais do que lhes havia sido prometido). As três seleções ameaçaram não jogar (ou não viajar de todo, no caso dos Camarões) por causa do dinheiro. A primeira relação que podemos observar é que as três equipas representam nações da África Ocidental. Será pela necessidade dos jogadores em receberem o dinheiro? Com a esmagadora maioria dos jogadores destas seleções a jogar na Europa, muito dificilmente será esse o motivo. No site Aljazeera America, Musa Okwonga escreve que a culpa destes comportamentos pode-se estender muito acima dos próprios jogadores. É também na África Ocidental que existem mais casos de corrupção no continente africano e esta reação dos jogadores poderá ser um reflexo dos seus líderes e a clara desconfiança nas suas obrigações.

Será que podemos, ainda assim, condenar os jogadores por colocarem o dinheiro como prioridade nas suas carreiras quando a entidade que gere todo o futebol se assume como uma organização sem fins lucrativos tendo milhares de milhões de euros no banco? No final de contas, a equação é a mesma, somos todos o reflexo de quem nos lidera. Eu pessoalmente compreendo que os jogadores recebam por participar no Campeonato do Mundo, até porque esta é uma competição de uma exigência extrema, não só física mas emocional onde todas as nossas ações são cobradas por toda uma nação e onde estará sempre presente o risco de uma lesão capaz de prejudicar uma carreira, que por si só já é curta mas sem dúvida que o dinheiro não deveria ser a prioridade. Um exemplo perfeito do que é o futebol a agir em prol da sociedade, retribuindo o que esta lhe dá, é a atitude dos jogadores da Grécia que enviaram a seguinte carta ao ministro grego:

"Não queremos prémio extra, ou qualquer dinheiro. Só jogamos pela Grécia e pelo seu povo. Tudo o que queremos é o vosso apoio para criar um centro de treinos que servirá como casa para a nossa seleção nacional"

Quando um adepto gasta dinheiro para viajar com a sua equipa, abdica de tempo com a família para ver a sua equipa e tira dias de férias para poder torcer pela sua equipa, não pode exigir menos que o mesmo empenho da outra parte, dos jogadores que representam a sua equipa e esses jogadores não podem ter no dinheiro o seu principal foco, a sua atenção tem de ir sempre no encontro da ambição e paixão de quem os apoia, dos adeptos, da paixão pelo futebol. E se essa paixão for genuína, o apoio será sempre incondicional. Porque é a paixão que todos procuram no jogo e quando a paixão é partilhada por uma equipa, a magia acontece e o povo agradece.  

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