A Arte do Futebol

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Jogadores ingleses não atingem o seu potencial.



Qualquer jogador que treine com os melhores se torna melhor e a qualidade das equipas inglesas é muito grande. Também é verdade que em Inglaterra existe uma percentagem muito grande de jogadores estrangeiros nas primeiras equipas, o que pode ser um ponto contra o florescimento dos jogadores nacionais. No entanto, num mundo tão competitivo como este, impera a lei da sobrevivência do mais forte e se os jogadores ingleses tiverem qualidade, eles irão vingar. A questão é que parece não haver assim tantos jogadores ingleses de qualidade e isso remete-nos para um problema ainda mais grave: a formação:

Só para servir de introdução, deixo aqui um facto interessante: 7º (Alan Pardew), 12º (Gary Monk), 17º (Eddie Howe), 18º (Sam Allardyce) e 19º (Steve McClaren). Estas são as classificações na Premier League dos únicos 5 treinadores ingleses (Tim Sherwood estava em último mas já foi substituído). É certo que sem ovos não se fazem omeletes mas alguns destes treinadores têm já uma vasta experiência no seu país, porque não fazem melhores trabalhos ou porque não são apostas para clubes de maior dimensão? Do que me vou apercebendo, os treinadores ingleses pararam no tempo há cerca de 10 anos atrás. É incrível como por esta altura, o método de treino analítico ainda é tão popular no Reino Unido e como muitos treinadores se recusam a evoluir. No entanto, isto pode acontecer por um aspecto tão simples quanto este: a periodização táctica, por exemplo, tem origens latinas (Portugal) e qualquer anglo-saxónico que se preze fala apenas uma língua, como tal, qualquer tentativa de investigar e estudar outras matérias no futebol podem tornar-se grandes desafios, algo que não acontece nas outras culturas. Assumindo que a qualidade dos treinadores ingleses não está a um patamar expectável àquele nível, se olharmos para os escalões de formação das academias dos grandes clubes (onde as maiores promessas inglesas jogam), a grande maioria dos treinadores são ingleses e grande parte dos formadores dos cursos de treinadores em Inglaterra são também ingleses, muitos deles já não estão sequer no activo (se os que estão no activo já estão atrasados em termos metodológicos...) e tudo isto leva a que haja um brutal sub-aproveitamento dos talentos locais e que estes acabem por ter mais dificuldades em fazer a transição para o futebol sénior, que é das transições mais difíceis em toda a Europa, dada a qualidade do primeiro escalão.

Num país com uma tremenda tradição futebolística e com instalações as quais em Portugal só podemos sonhar, urge uma medida extrema no que diz respeito à formação de treinadores locais para que o seu potencial seja aproveitado ao máximo, caso contrário continuarão a tentar criar atletas-robotizados (repare-se que escrevi atletas em vez de jogadores) que vão acabar por não ter qualquer expressão no futebol ao mais alto nível, onde a tomada de decisão e cultura táctica assumem papeis preponderantes no sucesso individual e colectivo. E atenção que não digo que se deva ser fundamentalista ao nível metodológico, mesmo tratando-se da periodização táctica, porque nesse caso iremos cair no mesmo erro daqui a alguns anos, quando o futebol evoluir (e está sempre a evoluir). A grande questão aqui é questionarmo-nos sempre sobre aquilo que achamos ser o mais acertado para podermos evoluir com o futebol, aprendendo com os outros e connosco. A periodização táctica é tão acertada agora como o treino analítico o era no século passado, ou seja, apesar de ser das metodologias de maior sucesso na actualidade, se não sofrer alterações, com os anos vai ficar desactualizada porque alguém a vai adaptar aos novos conhecimentos e novos contextos e passar-nos à frente. E como a formação é a galinha dos ovos de ouro do futebol, lembremo-nos que sem ovos não se fazem omeletes.

Foto: www.thefa.com

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